IMPOR LIMITES É DAR AMOR
Ana Spalato - Revista Brasileira de Terapia Floral

Reizinhos e princesinhas despóticas ficam perfeitos em histórias infantis. Na vida real, são crianças inconvenientes que podem se tornar adolescentes sem parâmetros e adultos imaturos e insatisfeitos. Como evitar isso?

Mariana, com apenas três anos de idade e seus enormes olhos azuis seria a concretização perfeita de um sonho que se tornou realidade. Esperada por mais de oito anos, ela nasceu "sob encomenda" , como afirmam seus pais que, alem de desejarem "uma menina de olhos claros".

Única filha e neta, logo cedo Mariana exibiu traços de uma autêntica princesa, mas para surpresa de todos, rapidinho assumiu atitudes dignas de uma rainha despótica. Manhosa, chorona, por vezes "elétrica", desde bebê ela consumia o tempo e a atenção dos pais. Noites mal dormidas ou em completa vigília passaram a fazer parte do cotidiano de sua mãe. Não raro, ao chorar Mariana ficava roxa, sem fôlego, pondo a família em pânico. As primeiras palavrinhas foram o bastante para transformar aquele "anjinho tão frágil" em um destemido tirano familiar.

"Tudo o que ela pede, eu faço", confessa a avó da garota. "Eu não agüento seu choro. Ela berra o tempo inteiro. Se estou preparando o almoço e ela cisma que quer um doce da confeitaria, desligo o fogo e corro buscar, senão enlouqueço".

E Mariana quer tudo ao mesmo tempo e nunca quer exatamente nada. Pede água, pede colo, pede doce, pede para passear na rua ou brincar com os enfeites da casa, desistindo de todas as suas vontades assim que é atendida. Ela nunca parece satisfeita, tranqüila, feliz. A mãe por sua vez, declara: "Eu não posso com a vida dela. Desde que minha filha nasceu, acabou o meu sossego".

O discurso de Emília, mãe de Thiago, não é muito diferente. Emília admite que não tem qualquer poder sobre seu filho de dois anos. "Ele faz o que quer e esgota todas as minhas energias. Não há quem o convença do contrario quando ele quer uma coisa. Em casa, ele manda, nós cumprimos seus desejos", desabafa.

Enquanto a mãe de Mariana dedica tempo integral para superproteger a filha tão esperada, Emília trabalha fora o dia todo e, movida por um infundado sentimento de culpa, procura suprir sua falta cedendo a todas as vontades de Thiago.

É proibido, proibir? - Nos anos 60, quando a repressão fazia parte do cotidiano latino-americano, a juventude ergueu a bandeira de "é proibido proibir". De carona nesse lema, pais e até mesmo educadores liberaram seus baixinhos acreditando que liberdade total funcionaria como um antídoto contra a repressão.

Os chamados "filhos da revolução", nascidos por volta de 1964, sentiram, anos depois, os efeitos dessa ausência completa de limites em sua educação, muitos deles declarando-se adultos inseguros, com dificuldades para escolher uma profissão, amadurecer e adaptar-se socialmente.

Repassados os erros, educadores e pais conscientizaram-se que reprimir não é e nunca será o caminho certo, mas liberar geral tornou-se, no mínimo, um descuido. Atualmente, os consultórios de psicologia infantil são unânimes em afirmar a máxima: "educar é saber frustrar", ou seja, impor limites bem definidos, estabelecer parâmetros entre o sim e o não.

Autoridade sim, autoritarismo nunca - Toda criança superprotegida tem dificuldade de lidar com suas próprias frustrações. Ela demora mais para exercitar a formação de sua personalidade, porque não experimenta o mundo. Sua resistência aos "nãos" que fatalmente recebe pela vida afora é baixíssima e isso dificulta sua capacidade de perceber o delicioso valor de um sim.

Perdida entre dois extremos que ela não compreende bem (até que ponto pode, até que ponto não pode), ela tende a se tornar insegura, insatisfeita, confusa, irritada e muitas vezes insuportável. Esse é o perfil mais comum de uma criança que não tem limites.

Entre as fronteiras do sim e do não reina o bom seno e meio termo. Saber dizer sim e saber dizer não é uma pratica de amor e compreensão.

Educar dá trabalho. E frutos! - Por trás de uma ordem e de um consentimento há um motivo. Seu filho sente isso, mas nem sempre está claro para ele a razão pela qual você está impondo limites. Não convém disparar, sem qualquer explicação, um "eu disse não e não se fala mais nisso", ou "cala a boca".

Esclareça os seus porquês, com firmeza na voz e determinação. Entre o autoritarismo e a falta total de energia, você tem 100 por cento de chance de acerto se recorrer ao seu potencial de autoridade afetiva. Saiba que, ao dar limites, você está dando caminhos, parâmetros, amor, atenção. Estabeleça regras, impondo-as com segurança.

Não há receita pronta de educação. Educar é trabalhar com os filhos o seu próprio desenvolvimento. Cada novo filho é uma nova experiência, única e diferente. É preciso estar atento.

Delimitando fronteira - Toda criança vai até aonde os adultos permitem. Quando você diz "chega", "pára", ela toma consciência dos limites e se encaixa em si mesma. Limite é algo adquirido, que a criança aprende com os pais. Se ela percebe que o pai e a mãe lhe dão limites, ela se sente amada, aprende o que é respeito. A falta de limites pode significar para a criança abandono, rejeição, indiferença.

Na melhor das hipóteses, a ausência de limites é o laboratório perfeito para formar pessoas imaturas e frustrados. Com o acréscimo de outros fatores, entre eles, a deficiência de "inteligência moral" e da capacidade de criar empatia com os outros, a falta de limites pode até desencadear na mente de crianças e adolescentes equívocos tão grotescos quanto não saber distinguir uma brincadeira de um homicídio, como mostrou o episodio de Brasília, em abril, em que alguns rapazes incendiaram o índio Aldino dos Santos, da tribo pataxó.

"Inteligência moral: uma herança necessária - Episódios tão cruéis praticados por adolescentes não ocorrem apenas no Brasil. Preocupado com a falta de respeito à vida humana, o psiquiatra Robert Coles, da Universidade de Harvard, Estados Unidos, publicou este ano o livro The Moral Inteligence of Children (A Inteligência Moral das Crianças).

Moralismo à parte, a obra citada na reportagem Que Juventude é Essa?, da Revista da Folha de 27 de abril, alerta pais e professores, considerados os responsáveis pela educação de crianças e adolescentes, a estimularem não só o universo intelectual e psicológico da educação, mas também a prática daquilo que Robert Coles chama de "inteligência moral".

Bom exemplo sempre funciona - O psiquiatra lembra que "inteligência moral" também pode ser desenvolvida com aprendizagem e bons exemplos.

Segundo o artigo, o autor mostra em seu livro que se a criança percebe que os adultos com quem convive têm respeito pela vida alheia, preocupam-se não só consigo mesmos mas também com os outros, criando com seus semelhantes uma relação de empatia, ela tende a agir da mesma forma. O isolamento em relação aos outros pode prejudicar esse aprendizado.

Robert Coles trata a adolescência como um capitulo à parte, que pede atenção especial, lembrando que nesse período crítico da vida, os adolescentes passam por uma espécie de renascimento.

É comum a tendência a sentirem um isolamento maior e uma enorme dificuldade de se identificar com seus semelhantes. Por isso, devem ser reforçadas, nessa fase, as mensagens e os valores morais adquiridos na infância.